terça-feira, 9 de setembro de 2008

Manias - I

Eu vejo cores em momentos. Prefiro pensar a falar. A gramática me acompanha. A impotência me domina. Bolsas caras me fazem companhia. Blusas velhas passeiam comigo. Eu adoro cheiro de mofo. Tutti-frutti me irrita no som e no gosto. Minha generosidade me incomoda. Gelo é excitante. Celular me transmite seguramça. Madrugadas me brozeiam mais que sol. O escuro tem magia e brilha. O dia também. Cigarro fede e faz parte de mim. Sou viciada em cheiros. A morte me intriga. Peixes me entediam. Bebo água em copos de plástico. Prefiro cerveja a refrigerante. Drogas me fascinam. Submundos me atraem. A felicidade me assusta. Não tolero cabelo escovado. Não moro na praia. Se pudesse, passavao dia no mar.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Ode ao prazer.

Pinga.
Pinga aqui no meu copinho.
Sua lágrima salgada de ardor.
Deita.
Deita aqui no meu colinho.
O seu corpo lambuzado de torpor.
Chora.
Chora aqui no meu ombrinho.
Eu posso te curar com meu amor.
Enrosca.
Seu pequeno pescocinho.
No meu peito moreno de calor.
Cola.
Cola aqui o seu rostinho.
Na minha faca afiada de suor.
Suga.
Suga todo esse carinho.
Com seu hálito abafado de horror.
Vem.
Vem cadente, vem suado. Come o meu dobrado, me deita de lado, me joga no telhado e me faz esquecer Conta, assim, sem chiado, o que eu tenho que lembrar. Conta aqui baixinho no meu ouvido. Conta pra mim que eu sou mulher.

(Me joga na parede e me chama de lagartixa. Who knows?)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Eu-lírico (ou a saga de Clarice e Marise)

Com 13 anos:

Clarice: Ai, Marise, você é tudo o que eu desejo ser.
Marise: É, e eu faço tudo o que você quer também. Uso as melhores roupas, sou mais le-gal, apesar do band-aid na testa.

Com 15 anos:

Marise: Ei, Clarice, acorda, querida. A vida taí ó, do seu ladinho e você desperdiçando o tempo em camas de hospital. Levanta logo.
Clarice: Ah, me deixa dormir. Isso tudo tá doendo demais.
Marise sai de férias.

Com 18 anos:

Clarice: Ei, Marise, eu sei que você tava de férias mas acho que você tá exagerando na dose. Me deixa voltar.
Marise estava "alta" demais pra responder. Fechou a porta e deixou a Clarice pra fora.

Com 20 anos:

Clarice: Marise, você vai sair?
Marise: Vou! E prometo me divertir por você.
Marise saía. Clarice quase sempre ficava em casa.

Com 21:

Marise: Cla, você tá trabalhando demais.
Clarice: Quero férias.
Marise: Ah, eu quero praia-sol-mar-breja-e-amigas. Tem como dar errado?
Clarice: Não! Me leva com você?

E ao longo dos anos elas se fizeram companhia e se odiaram. Elas vão viajar juntas pra Itacaré. Elas vão se tornar uma só.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Quando ela decidiu

Ela tem tanto medo. E tem medo do que pode ser. Senta na calçada e pensa porque não tem palavras a menos ditas ao vento. Ressente momentos de silêncio. Ressente momentos de mais nada. Acende um cigarro e aquela labareda intensa que queima o ar frio. Nesse conflito libertador, recrimina as risadas ecoantes que insiste em dividir. Aqueles olhares irônicos, aquelas pernas cadentes. Enxuga as lágrimas. Pensa que podia ser assim, bem mais ou menos, café com leite, mamão com açúcar. Por que nasceu decidida a ser radiante? Quer mesmo sentir pela metade, quer férias daquela intensa magia maculadora. O torpor daquele momento adormece seus pés. Não há nada que possa expurgar aqueles pensamentos? "Pensamento que vem de fora e pensa que vem de dentro. Pensamento que expectora o que no meu peito penso. Pensamento a mil por hora, tormento a todo momento...". Não! Ela se impede de pensar. A calçada já é áspera com sua angústia. Nem pra se repudiar ela consegue ser uma mulher amena. Aquela busca, aquele anseio, ela tem medo do que se transformou. Foi ali naquela esquina que ela decidiu. Quando o mundo dividiu-se em seus dois pedaços, ela descobriu que preferia ter sido amada do que ter alguém. Ela escolheu naquela tal encruzilhada que preferia morrer de amor do que de conforto. Ela sabia que preferia amar do que ter companhia. Ali, naquela calçada gelada, do lado certo, da vida errada, ela descobriu que não queria ser nada. Ela decidiu ser um furacão.

Duvida?

Tem uma dúvida que me assola há vários dias.
Será possível afogar uma pessoa com um conta-gotas?

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Importa?

Eu até arrancaria sua roupa agora.
Mas chove tanto lá fora.
E eu esqueci de escovar os dentes.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Abololô

Haviam tantos Marcelos, tantos Renatos e Tiagos que poderiam ter sido. São tantos os Pedros, tantos Joãos e Josés que poderiam ter ido. Mas em meio a tantos Danilos, Andres, Antônios e Felipes, foi você quem veio. Com esse jeito calado, sentou aqui do meu lado e não pediu licença pra ficar. E foi tomando meu espaço e sem eu perceber, se tornou um pedaço desse vidrado olhar. Tão vidrado em você que nem lembrou de esquecer tudo mais que havia ao redor. E não percebeu que estava guardado, ali no fundinho, o perigo, em seu cheiro, pernas, pés e umbigo. Você assim, com esse jeito moreno, esse abraço pequeno e areia nas mãos, me perdeu na estrada, na esquina quebrada, na contramão. Agora fico aqui, com esse sentimento a mil por hora, que me toma sem demora e me faz esquecer a hora de desligar o fogão. Amo então a toda velocidade, com intensidade, vontade e paixão. Questionando minha sanidade, peço assim, de verdade, não quebre meu coração. Porque eu me perdi nos seus passos, entre beijos e amassos, no laço de aço do seu cordão. E não quero me encontrar. Quero sentir meu peito sem ar, com teus braços me apertando pra sufocar. Eu não quero pensar, não quero perder. Me deixa sonhar. Esse peito já não sente em mais nada. Topa qualquer muro, pedra e parada. Desse jeito rasgado, só exige você ao lado. Você, que de mansinho mudou matizes, odores e raízes, me deixa assim, irracional, sem saliva na boca e com rima banal.