quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O que conforta

  • "Hoje vejo que realmente não daríamos certo. Você é demais pra mim"
  • "O silêncio entre nós não me incomoda"
  • Acordar depois do meio-dia
  • Esquecer de lembrar
  • Minha mãe na porta
  • Bolsas grandes
  • Travesseiros fofinhos
  • Pedaços de queijo (de todos os tipos)
  • Amigos na barra
  • Tardes de sábado
  • Zeca Baleiro
  • Vícios
  • Queijo ralado... muito queijo ralado
  • Telefonemas a qualquer hora
  • Mensagens de madrugada
  • Bilhetes de amor
  • Amor
  • Certeza concomitante de pensamento
  • Companhia
  • Blusas macias
  • Meias quentinhas
  • Cachorro dormindo no pescoço
  • Cheirinho, pescocinho, pelinha e tudo que diz respeito a bebês
  • Conslusões e soluções
  • Trabalhoferradoqueexpulsatodosospensamentosdacabeça
  • Números
  • Formigas andando em fila no bolo de chocolate
  • Iguanas em hotéis
  • Andar de carro
  • Música andina
  • "A única coisa que não tem perdão, Clarice, a única coisa que não tem solução, é a morte"
  • Palavras molinhas
  • Companhia (e o simultâneo desaparecimento do medo da solidão)
  • Amigos de longe
  • Quarto de hotel
  • Dormir na praia
  • Morrer de amor
  • Ficar de pilequinho
  • Sentir medo e fazer
  • Lagostas em Fortaleza
  • Amigos tão perto

Por mim, todas as coisas do mundo podiam ter cheiro de maçã verde.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Da Mirella.

damaged people are dangerous because they know they can survive.

Sacou?

Lágrimas

Eu pensei em chorar no exato momento em que senti a dor.
Mas esta foi tão atroz, que posterguei o choro para quando ela passasse.
Uma vez passada, quis gozar do alívio. E no gozo, o choro, novamente, não coube.
Quis chorar em noites cálidas de solidão cortante. Mas tive medo do frio congelar as lágrimas.
Quis chorar em dias quentes demais, quando o calor parecia me sufocar. Mas, se as lágrimas iam evaporar, pra que derramá-las?
Quis chorar pra aliviar, pra cansar, pra sentir-me um pouco humana. Mas percebi que a angústia me transforma, que o descanso me mantém em pé... E que, às vezes, ser humana deve ser chato demais.
Queria chorar agora e nem sei porque.
Me ensina?
Ando gastando paredes com meus pensamentos.

Me ajuda a olhar?

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Sol

Ela guarda tempestades no céu da boca. Ensina, todos os dias, que a vida é feita de nuvens, algodão doce e tontos sons. Tem na cartilha que a vida é feita de coisas bonitas, margaridas no campo, formigas pequenas e laços de fita. Ela é magia. Preenche o espaço sem estar. É um trovão. Faz da cama tocas pequenas de coelhos peludos e macios. Tempera pratos, atos e fatos. Tempera, assim, meu coração. Sai todos os dias pra descobrir seus erros. Come pão molhadinho de café. Ama sincero, sem medida e posso jurar que dentro daquele armário vazio, esconde uma varinha de condão e uma bola de cristal. Por que estar sempre certa? Porque estar sempre certa, pra ela, é normal. Ama meus sorrisos, meus trejeitos, meus passos pesados, meu avesso, meu ciso e meus pés. Ninou minhas noites com Chico, Caetano e tudo mais que pudesse lembrar ideologias e revolução. Ela pensa! E guarda tempestades no céu da boca. É a certeza de felicidade ao entrar em casa. Prefiro um mundo sem chaves com ela na porta. Menina da janela. Da minha janela de partida. Do meu cais de chegada. Sempre me pergunto como cabe ali, naquele peito moreno, tanta sabedoria. "Mas seus olhos castanhos me metem mais medo que um raio de sol". Acorda meus sonhos em silêncio com amor de vitamina de banana. Num amor tão sinestésico, me quero criança, quero ser sempre a criança na barra da saia dela.

No meu dicionário, Solange é assim:

Amar+é+acordar+cedo+pra+fazer+a+vitamina+de+banana, violeta, dourado, glamour, verdade, voz alta, risada fácil, felicidade pura, intensidade, Eduardo Galeano, Ítalo Calvino, palavras difíceis, excertos de Quintana, força, menina+levada+que+come+doce+todo+dia, cabelos compridos, pés no chão, molho de tomate, Chico Buarque, letras incompletas de músicas, canções de ninar, nuvem, inteligência, paixão, alguémquegostatantodamaluquantoeu, barra da saia, proteção, aconchego, travesseiro, tardes ensolaradas, aurora, via láctea, 6, voz, Rita Lee, abraços, inteira, segredos, surpresa, momento+exato+antes+de+entrar+na+festa+de+aniversário, brava, espelho, gatos, hippy, tiazona-caretona-que-já-foi-pra-algodoal, pureza, cheiros, massagem no pé, amor.

E é tão mais. Mas é tudo pra mim.

Feliz ano novo, Sol.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O fim.

Tudo acabou assim, num triste filme noir.
Saíste do cinema e eu fiquei te guardando o lugar.

A-b-c-dário

H

Tinha o nome bem feio. A figura também. Mas me chamava de boneca de porcelana e certa vez socou um muro por mim. Foi a grande salvação em momentos de angústia. Disse palavras doces à sua maneira e vez em quando surge. Ensinou coisas de carne e me beijou em frente a igrejas. Quando eu preciso de colo, é o refúgio mais seguro. Eu quebrei seu coração.

B - 1

Tinha gosto de mar. Tinha sabor de areia. Foi a coisa mais fulminante que esse peito já sentiu. Fazia planos de Londres. Falava de filosofia. Quando eu esbravejava à distância, me calava calmamente com um "eu te amo". Invadiu meu peito sem licença. Reprovou meus atos infantis. A vida nos separou como deveria ser.

E

Era uma coisa de pele. Um cheiro, uma língua, dois corpos e o mundo. Tinha vontade de mim. A gente se untava com ungüento. A amizade ainda bate forte em nossos peitos.

L

Éramos um e dois e muitos. Éramos imã. Éramos pernas, escadas, saliva e perdão. Éramos música, bateria e violão. Tínhamos pouco tempo. Éramos mudança, anseio e cigarros. Éramos ensaio, luz e platéia. Éramos tanto que doía. Fomos lágrima e medo. Fomos nossos. Éramos demais um pro outro.

D

Nós nos amávamos em Shakespeare. O amor já existia, só esperou por nós. Ele me amava com olhos, desejo e admiração. Ele não acreditava em me ter e se boicotou. Ele, sem saber, maculou um pedaço do meu coração. Fez meu peito de palco pra uma platéia sem palmas. E me amou todos os dias que eu precisei. E me buscou, me quis, me pediu pra mim. A mutação do amor fluiu. Somos felizes com a certeza de que nossos paralelos vão se encontrar no infinito.

L

Tinha um mundo inventado por medo de rejeição. Eu o amei mesmo depois da farsa. Ele quis me dar uma casa, um filho e amor. Nossos sonhos se perdiam em cigarros. Foi minha primeira luta. Num bar vazio, uma amiga, bacardi e a insistência. Ele quis gritar ao mundo! Meus temores apagaram essa memória antes dela existir. Restou um anel e a certeza do meu primeiro (e até hoje único) arrependimento. Eu devia ter fugido com ele.

B - 2

Foi minha maior busca. Foi meu maior erro. Foi a minha grande frustração. Foi eu perdida num céu claro sem estrelas. Tudo era tão óbvio. Tudo ali, a meus olhos, ao alcance do nariz. O entendimento de felicidade inventada. A compreensão de que momentos bons podem ser mera conseqüência de uma convivência. Ele roubou um ano da minha vida. Arrancou do meu peito o que havia de melhor. E me transformou no que sou hoje.

R

Foi tudo de melhor que podia ser. Via em mim o frescor de uma vida nova e excitante. Via em mim sua salvação. E se ateve a meus braços, roupas e sentidos. E agarrou minhas pernas. E teve medo de me perder. Pesou seu corpo no meu e caiu. Eu estava muitos passos a frente. Sem a queda, poderíamos ter sido felizes por mais tempo.

P

Dizia no meu ouvido tudo o que eu queria ouvir, mas tinha medo de escutar. Eu estava com as portas fechadas. Com as janelas trancadas. Eu tive medo. Eu tive medo de gostar de novo. Eu perdi. Perdi discussões, perdi sorrisos, perdi o gosto forte do café com o cigarro. Perdi um peito-travesseiro. E decidi abrir minhas portas pra nunca mais perder o que poderia ter tido. Ele ainda ronda meus sonhos e telefonemas. Ele ronda minha rua embriagado de madrugada.

D

Eu tentei ter o coração aberto. Tentei destrancar as janelas e deixar as portas entreabertas. Ele tinha os dedos afiados nos meus quadris. Tinha os olhos atentos a seu medo e buscou motivos, enquanto eu me permitia. Mas eu só tinha um buraco no peito. E ele uma faca. Tranquei as janelas, cerrei as portas e joguei as chaves fora.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Você ainda vai tropeçar no seu orgulho e cair na minha cama

Eu tenho um buraco aberto no peito. Um prego foi responsável por ele. A ausência do prego por muito machucou de morte esse peito aberto. E você se achou no direito de pegar sua faca e reabrir essa ferida. Você chegou de mansinho, me colocou no seu colo e achou que podia brincar. Esburacar, meu amigo, não é brincadeira. Um peito aberto merece respeito. Uma dor merece atenção. Mas você só conseguiu olhar por sobre esse vão e esqueceu de enxergar o peito que o forma. Muitas dores são sem valia. Muitas palavras nada dizem. Mas eu quis acreditar. Quis crer que você não tinha uma faca. A ilusão me deu imagens agora desagradáveis de um sopro acalentador na ferida recorrente. Eu me entreguei, você me usou. E estabelece um jogo diário sem time, sem dupla, sem regras, sem padrões. Não movi minhas peças, mas você continuou fazendo seus pontos. Eu não sou um tabuleiro de xadrez. Tire suas mãos sujas de lama da minha côxa. Arranque dos meus quadris seus olhar de desejo reprimido. Destrua as palavras dúbias que ainda moram no meu ouvido. Não me deixe mais permitir você me invadir. Eu me ative a fios de teias, você as teceu sem licença. A queda, meu amigo, não faz parte de mim. A fumaça do seu cigarro não vai dissipar a impureza do seu caráter. O encontro de retinas é sombrio. E você tinha uma faca. Fez uso dela sem parcimônia e esqueceu que feridas abertas incomodam. Você tem, agora, suas mãos sujas com meu sangue. Pode disfaraçar, lavar, limpar, mas o cheiro do metal ensanguentado não vai sair de você. Você ainda vai lembrar do som do meu sorriso e da cor da minha escova de dentes. Seu jogo não me engana mais, não me perturba mais. Estabeleça quantos contatos telepáticos quiser. Pule na minha mesa e rasgue meus papéis. Atropele meus passos sem pressa, sem medo. Conte segredos ao vento pra que eu possa escutar. A ferida faz parte de mim. Sua faca não me mete mais medo. Eu sentei e fumo meu cigarro. Você ainda vai tropeçar no seu orgulho e cair na minha cama.